Temos a imensa honra em apresentar uma mostra inédita no Brasil de poemas da escritora croata Darija Žilić. Nascida em Zagreb em 1972, Darija é crítica literária, ensaísta, tradutora e poeta graduada em Literatura Comparada pela Universidade de Zagreb, é também editora da revista literária Tema.
Na última década, Darija venceu os dois mais importantes prêmios literário da Croácia, o The Kiklop Award, com seu livro de poemas Pleši, Modesty, pleši (Dance, Modesty, Dance) e o prêmio da crítica Julije Benešić Award para sua obra Muse outside Ghetto, também dos anos 2010.

A poesia de Darija Žilić tenta escapar da sensação de que o mundo é ilusório acreditando (e fazendo crer) que o tempo (e o espaço) podem ser superados pela poesia, numa espécie de máquina de memória frequentemente não confiável, como costuma dizer a autora… Por mais que a transitoriedade da fala e da vida cotidiana destrua perigosamente os fundamentos da eternidade —aquele que fala, no caso, a poeta, busca nos oferecer formas e figuras que estão sendo repetidamente remodeladas pelo ser social.
Nesta seção especial de poesia croata, apresentamos uma coleção de seis poemas da Darija Žilić traduzidos por Meri Grubić e apresentados aos leitores da Philos pela curadoria de Stéphane Chao e Kátia Bandeira de Mello. As pinturas que acompanham a publicação são do artista Charles Lessa. Sem mais delongas, leiam a mostra intitulada “O terceiro verão & outros poemas”, de Darija Žilić exclusivamente para a Revista Philos:
Treće ljeto
Ispod palme stare dvadesetipet godina,
leže ruže kojima je 65.
Iz davnih ljetnikovaca otišli su vozači kamiona,
Na dugoj magistrali voze nas u sredinu ljeta,
Kad u napola otvorenim cvjetovima agava
Ispadaju sjemenke budućih trajanja.
Kad smo se oslobodili straha od ovog svega,
Nebo i more su opušteno se spojili u točci
Horizonta s koje gleda nas jutro puno boja i
Cvrkuta, sve je danas, bez natruha vremena
Koje je jednom davno ostavilo dječaka samog
U velikoj kući, da tamo opet probudi život.
Treće ljeto, nema u sebi dramatike, kljun ptice
Donio je blagost popodneva u kojem nestali
Ljudi opet žive, a naša put zrije kao da je sad
Završila osmoljetka. Djeca doline.
[Treće ljeto, 2021]
O terceiro verão
Debaixo da palmeira de vinte e cinco anos,
estão deitadas rosas de 65.
Os camionistas deixaram as mansões antigas,
Conduzem-nos por uma longa estrada em pleno verão,
Quando nas flores de agave entreabertas
Caem as sementes de futuras durações.
Quando nos livramos do medo de tudo isto,
O céu e o mar juntaram-se com tranquilidade no ponto
Do horizonte donde nos olha uma manhã cheia de cores e
Gorjeios, tudo é hoje, sem traços do tempo
Que uma vez deixou o menino sozinho
No casarão, para estar novamente o despertar da vida.
O terceiro verão, não tem drama em si, o bico do pássaro
Trouxe a doçura da tarde em que
Os desaparecidos vivem novamente, e os nossos corpos amadurecem como se agora
A escola primária tivesse acabado. Os filhos do vale.
[O Terceiro Verão, 2021]
Iranske Pjesnikinje
Sve iranske pjesnikinje pobjegle su iz brakova.
Iz kaveza u kojima nikad ne pjevaju ptice.
Ostavile su iza sebe djecu, prazne sobe i
mirise ljekovitog bilja.
Možeš ih vidjeti kako plešu s vjetrom na ulicama
i kako ih u svoje domove pozivaju samohrane majke.
Možeš ih čuti dok noću pjevaju o žudnji ispod krovova
ili negdje u zraku, kao bestjelesna bića.
Iranske pjesnikinje, kakvog li zanosa u pjesmi o Bogu,
majci koja sahranjuje sina, o tijelu kao voću
najzrelijem ili o tijelu kao vrču koji se puni suzama.
Žal za djetetom koje se nikad neće vratiti.
Žal za sobama punim knjiga.
Ponekad žal za okovima koji nose tek blago snatrenje o
slobodi koja jest ili nije privid.
[Svitanje, 2018]
As poetisas iranianas
Todas as poetisas iranianas fugiram de casamentos.
Das gaiolas onde nunca cantam os pássaros.
Deixaram atrás delas crianças, quartos vazios e
os cheiros das ervas medicinais.
Podes ver como dançam com o vento nas ruas
e como as suas casas convidam mães solteiras.
Podes ouvi-las enquanto cantam de noite em desejo sob telhados
no ar, como seres incorpóreos.
As poetas iranianas, que exaltação no canto sobre Deus,
sobre a mãe que enterra o seu filho, sobre o corpo como fruto
mais maduro ou sobre o corpo como cântaro preenchido pelas lágrimas.
Os lamentos por um filho que nunca regressará.
Os lamentos pelos quartos cheios de livros.
Às vezes, a lamentação pelos ferros que levam apenas ligeiras fantasias sobre
a liberdade que é ou não uma ilusão.
[O amanhecer, 2018]
Kao Emily
Da mogu, živjela bih kao Emily,
među pticama i pčelama u vrtu,
na stolici kraj vinove loze.
Ne bih se micala odatle i bio bi to
sasvim dovoljan prostor za mene.
Pila bih vodu, jela prežganu juhu
i nosila uvijek istu sivu haljinu.
Okupljala bih drugove da u rano
popodne, ispod bora, zborimo
o jezerskim pjesnicima.
U ranim večerima slušala bih
zvukove ćuka i tjerala raširenih
ruku svrake koje zauzimaju tuđa
gnijezda. Da mogu, živjela bih
kao Emily, ispod hrasta i čekala
smrt s licem sretne djevojčice.
[Pleši, Modesty, Pleši, 2014]
Como Emily
Se eu pudesse, viveria como Emily,
entre pássaros e abelhas no jardim,
na cadeira ao lado de uma videira.
Não me moveria de lá e seria esse
o espaço suficiente para mim.
Bebia água, tomava sopa de cozido
e sempre usava o mesmo vestido cinzento.
Reunia os meus amigos cedo
à tarde, sob os pinheiros para conversarmos
sobre poetas do lago.
Ao entardecer ouvia
o som de coruja e dispensava, com os braços
abertos os corvos que ocupam os ninhos
de outros. Se eu pudesse, viveria
como Emily, debaixo de um carvalho e esperava
a morte com o rosto de uma menina feliz.
[Pleši, Modesty, Pleši, 2014]
Abeceda Ljubavi
Svaki dan krećemo od početka. Ujutru
ti moram crtati usta, mrvicama pokazati
put do kuće, obnavljati iznova slovo
po slovo.
Zabavlja me to. Učim te kao analfabeta.
(Jezik spremno rasipa se, pokazuje
svoje šumsko porijeklo).
Kad predvečer ponavljamo ljubavne
fraze, obavljamo čin vjenčanja koje
ne pamtimo.
O alfabeto do amor
Começamos do início todos os dias. De manhã
tenho que desenhar a tua boca, marcar com migalhas
o caminho para casa, repetir novamente letra
por letra.
Isso diverte-me. Estudo-te como uma analfabeta.
(A língua dissipa-se prontamente, mostra
a sua origem florestal).
Quando à noite repetimos as frases
de amor, realizamos o ato de casamento que
não lembramos.
[Pleši, Modesty, Pleši, 2014]
Brod luđaka
U polumraku prolaze sjene na platnu dok mnoga udobna
sjedala ostaju netaknuta i prazna. Nitko ne želi gledati film
o šutnji i holokaustu, o bolesnim ljudima koji plutaju na
lađi, slikaju cvjetiće po bijelim papirima i ostavljeni, jedni
drugima pričaju o još jednom danu u logoru.
A gradovi? Oni su sanduci puni olova. Državama ne treba
tepati, one su osvetile svoje zemlje i ostavile pločnike za
zbunjene dječake i bolesnike.
Šutke, nakon projekcije, smetena, hodam gradom
koji se pretvara u brod luđaka i nestaje u rijeci.
[Pleši, Modesty, Pleši, 2014]
O barco de malucos
Na penumbra, as sombras passam pela tela, enquanto muitos assentos confortáveis
permanecem intactos e vazios. Ninguém quer ver um filme
sobre o silêncio e o Holocausto, sobre os doentes que flutuam
num barco, pintam flores nos papéis brancos e abandonados,
falam uns aos outros sobre mais um dia no campo.
E as cidades? São caixotes cheios de chumbo. Não se deve
murmurar, eles vingaram suas terras e deixaram as calçadas
aos meninos confusos e aos doentes.
Silenciosamente, após a projeção, confusa, ando pela cidade
que se transforma num navio de malucos e desaparece no rio.
[Pleši, Modesty, Pleši, 2014]
Smijeh Kukcima
Neke se žene rađaju i umiru
pogrbljene, zgrčene, presavijene –
to su valjda ostaci iz praživota,
to su valjda darovi pramajki
koje danima brale su kupine
i bojale su se gledati gore,
prema najvećem plodu;
zato im je čitav život bio, ostao
smijeh sa kukcima u nekim
dobro sakrivenim zemunicama.
[Grudi i jagode, 2005]
Rindo com os insetos
Algumas mulheres nascem e morrem
curvadas, encolhidas, dobradas –
serão provavelmente remanescentes da pré-história,
serão provavelmente os presentes das bisavós
que colheram amoras durante dias
e tiveram medo de olhar para cima,
em direção aos maiores frutos;
é por isso que toda a sua vida, permaneceu
sorrindo com insetos em alguns
abrigos bem escondidos.
[Peitos e morangos, 2005]
